Deserto do Atacama: um passeio de outro planeta

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Uma viagem pela mãe Tierra, Pachamama, com nuances siderais. Ameizing.com foi conferir as curiosidades do deserto mais árido do mundo. As imagens e experiências a seguir são chocantes. 

Há algum tempo, nosso colunista Roberto Muylaert postou aqui no ameizing.com detalhes sobre o grupo que pretende colonizar Marte. Bizarro pensar que a viagem só de ida — sabe-se lá se o grupo chegará vivo ao destino final —  levará humanos para enxergar, a olho nu, as paisagens do planeta vermelho. Nossa proposta, bem menos ambiciosa em termos de riscos e distância, promete levá-lo a uma viagem incrível por panoramas sui generis, ligados intimamente ao sistema solar.

O deserto do Atacama é um dos pontos mais importantes para observação de astros em todo o mundo. Isso graças ao céu límpido e à ausência de luzes junto ao solo que atrapalhem o brilho natural das estrelas e planetas. Isso já era sabido antes de recebermos o convite para conhecer esse lugar encantador. Nossa base, em San Pedro do Atacama, foi o Tierra, que a exemplo do hotel irmão, na Patagônia, com maestria combina a arquitetura revestida de cobre — material 100% chileno — e mimetiza a paisagem entre os históricos tijolos de adobe e os cactos que recobrem o solo arenoso. Os espelhos d’água refletem a imagem incólume da cadeia montanhosa que inclui vulcões (ativos e adormecidos).

Mas a sensação de estar em outro planeta, motivo pelo qual a reportagem começa falando de Marte, não é uma simples analogia. As diversas excursões — acompanhadas pelo jovem e simpático guia Francisco Gonzalez, exímio conhecedor de botânica —, foram um verdadeiro passeio por paisagens singulares. Singulares por diversos motivos: pensar na região mais seca do mundo pressupõe a ausência de água, em todos os sentidos. Seja em termos de precipitações, seja na existência de rios perenes, além, é claro, dos intermitentes. Mas o Atacama não é isso. Reúne um conjunto de atrações diversas que reservam ao visitante um mix de telas coloridas em meio a oásis regados a lagos, lagoas e rios. Tudo isso, com nomes e paisagens que fazem referência a astros e planetas.

Já imaginou como seriam os verdadeiros anéis de Saturno? Ou como é, de fato, a superfície lunar? Danilo Vidal, astrônomo responsável pelo observatório Alarkapin, é quem apresenta com detalhes as constelações do zodíaco — em primeiro lugar a olho nu, de madrugada, e a céu aberto (-10 oC de temperatura) — e em seguida, com o telescópio eletrônico. É nessa hora que a “verdade” salta aos olhos. Sim, os anéis de Saturno existem e são visíveis por meio do equipamento. Sim, a lua tem crateras enormes e elas podem ser cuidadosamente percebidas e fotografadas por meio do telescópio.

Conheça detalhes de cada uma das atrações interplanetárias que o deserto do Atacama reserva aos visitantes. Nossa sugestão é juntar na mesma trip Patagônia e Atacama, com direito a um descanso em Santiago no hotel boutique Luciano K.

Sobre o hotel

O Tierra Atacama é o primeiro dos hotéis que integram a rede chilena, com a filosofia de proporcional conforto, entreter e relaxar os visitantes em instalações que conversam com o panorama local paisagística e sustentavelmente. O diferencial dessa unidade está na contribuição social que a rede oferece a estudantes locais, capacitados pelas escolas da região e treinados como estagiários pelo Tierra. Grande parte dos guias turísticos que passam pelo treinamento tornam-se, mais tarde, guias do hotel.

Localizada a 15 minutos à pé — o trajeto de bike também é recomendado — do centro de San Pedro do Atacama, a construção preserva muros originais de um antigo corral de toros, feito de adobe.

Todas as acomodações têm vista para a cadeia montanhosa e chuveiros externos, que permitem banhos à luz da lua (tradição local).  Há apartamentos que recebem até seis hóspedes com 3 quartos distribuídos em dois pavimentos. Já falamos sobre a “Revolução do All-Inclusive” experimentada na Patagônia. Pois a qualidade gastronômica aqui, se mantém. Com ingredientes locais, mistura a base francesa com ervas, temperos e tubérculos locais (especialidade da região).

Valle de la Luna

O panorama surreal do Vale da Lua, localizado na Cordilheira de la Sal e a noroeste de San Pedro de Atacama, lembra os velhos desenhos animados do papa-léguas. Não à toa, o ponto alto passeio é a Piedra del Coyote, numa referência ao caçador do pássaro do deserto. A formação rochosa, em balanço sobre o vale é o cenário para a foto típica dos visitantes. Lá são avistadas formações rochosas com formas singulares, resultantes da erosão fluvial, das chuvas (sim, elas ocorrem no verão, nos meses de dezembro e janeiro) e do vento.

Valle de la Muerte

Próximo ao Valle de la Luna, esse vale é ainda mais impressionante. Há duas explicações para o nome dado ao local. A primeira teria sido a má interpretação do sotaque francês do arqueólogo Gustave Le Paige, explorador da região nos anos 1950, chamou o vale de Marte, numa alusão ao aspecto semelhante ao da superfície da planeta vermelho. A segunda, bem mais crível, sustenta que a população local teria o costume de lançar corpos ou doentes graves pelo abismo. No entanto, não há vestígios arqueológicos que comprovem essa possibilidade.

Termas de Puritama

Já imaginou uma cascata de águas quentes e cristalinas cheia de piscinas naturais? Termas de Puritama é um convite ao relaxamento, com direito a massagem nas costas graças aos jatos da queda d’água. À medida que se distancia da nascente, vale abaixo, a água fica mais fria. O all-inclusive oferecido pelo Tierra contempla inclusive um belo piquenique de queijos, embutidos e vinhos logo após os banhos nas termas. O conjunto de piscinas é, na verdade, parte do rio Puritama, um dos únicos intermitentes da região, que banha os oásis, incluindo a própria San Pedro do Atacama. As águas termais tem uma temperatura que parte dos 33o C, e estão localizadas a 3.500 metros de altura.

Observatorio Astronomico Alarkapin

A visita ao observatório é um desafio àqueles que ainda acreditam no poder do zodíaco. Danilo Vidal, astrônomo responsável pelo observatório, começa a “viagem pelo espaço” mostrando, a olho nu, as constelações que regem cada signo. Impressionante é a explicação sobre o verdadeiro calendário dos signos, que teve graças à alteração do papa Gregório, ainda no século XII, a retirada do décimo terceiro mês, e consequentemente, do signo da serpente. Sendo assim, segundo as astrônomo, não só a quantidade de signos está incorreta, como a duração de cada período regente, que não é fixa como o calendário mostra. Depois da observação sem o auxílio de aparelhos, o guia encaminha os visitantes para o telescópio e, a partir daí, observar lua, saturno e outras estrelas, com imagens impressionantes. Importante: as visitas ao observatório não podem ser feitas em fases de lua cheia, ou próxima disso. A luz excessiva do astro impede a visualização das demais estrelas e planetas.

Salar de Atacama e Toconau

Ao contrário da Patagônia, em que é difícil encontrar habitantes locais,  o Atacama tem por seu território diversos povoados típicos. Toconao, com sua simpática e bem preservada praça central, é onde moram muitos artesãos atacameños. Fica a 38 quilômetros de San Pedro e uma igrejinha de adobe construída em 1744. Artigos de pura lã de alpaca além de pequenos objetos de pedra vulcânica e cobre são encontrados nas lojinhas. A cidade possui sistema de irrigação artificial desde 300 a. C., fato extraordinário para quem se interessa por civilizações que antecedem a colonização espanhola. Toconau é parada obrigatória para quem visita o Salar do Atacama, uma das principais atrações do deserto.

Lá, a escala humana torna-se ínfima diante da grandeza de Pacha Mama, ou mãe Terra, como dizem os locais. Conhecer o Salar, que fica dentro da Reserva Nacional dos Flamingos, é um convite à meditação. Visitá-lo no fim da tarde é o ideal, quando a contemplação do azul-turquesa com o branco do sal se torna avermelhada pelo sol poente. O degradê que vai do branco aos azuis é quebrado pelos pontos avermelhados, bandos de flamingos. É nessa hora que afastar-se do grupo, sentar-se sobre o sal e, simplesmente, observar é sublime. O vento forte torna o passeio mítico e místico.

Machuca

Pode parecer esquisito, mas quem visitou o Atacama e não comeu o espetinho de lhama de Machuca, perdeu viagem. A pequena vila de apenas uma rua, fica a 4.000 metros de altura. Ao desembarcar no local, o perfume da carne é sedutor. Machuca está cercada de dunas e, como diria a jornalista norte-americana Janes Jacob, tem na igrejinha colonial espanhola sem marco visual preponderante. A cobertura das casa de adobe é feita com uma espécie de palha dourada, retirada do próprio deserto, e substituída anualmente.

Valle del Arcoiris

O degradê que parte de tons terrosos, passa pelo branco e termina num verde-musgo parece ter sido pintado à mão. O Valle del Arco-Íris, situado em Rio Grande, é marcado pelas sucessivas camadas de formação geológicas sobrepostas ao longo de milhões de anos. Fendas entre as formações podem ser visitadas em uma espécie de trilha natural, que exibe em meio à falésias das empenas pequenos cristais de sal que brilham com a incidência da luz.

No caminho para o vale, há uma parada para observação de petroglifos (figuras esculpidas na pedra) e pictoglifos (figuras pintadas sobre a pedra), com idade estima de 11 mil anos. A arte rupestre mostra a figura da lhama, animal local, somada à imagem de macacos, ausente na fauna local. Essas informações mostram o possível contato dos “artistas” com a civilização inca, que teria avançado até os  limites da região.

Cactos de formatos diferentes cercam a região, incluindo uma espécie de figo-da-índia, que partido ao meio, é fonte de água e alimento para os “perdidos no deserto”. Outro cacto curiosos, este sim encontrado em praticamente toda a região do Atacama, é o “cojíin de la suegra” ou assento da sogra. Aparentemente confortável, o conjunto de espinhos é o melhor remédio para o inimiga.

Geisers del Tatio

Este é talvez o ponto alto do passeio ao Atacama. A uma altura de 4.300 metros, os Gêiseres del Tatio, campo geotérmico, vale o esforço de acordar às 4:30 da manhã. Ao contrário do Salar, aqui o bacana é assistir ao nascer do sol. Sob uma temperatura de até 16 graus negativos, o efeito do vapor e dos gases emitidos pelos gêiseres em contato com a luz do sol promove imagens impressionantes. Há quem arrisque mergulhar nas lagos sulfurosas, com temperatura de água próximo aos 35 graus. Colunas de vapor são lançadas a quase dez metros de altura, com poços em que a água jorra a quase 100 graus. Depois da caminhada entre os gêiseres, um delicioso café da manhã aguarda os visitantes em meio à fauna local. Tem direito à visita de pássaros e até raposa.

Como chegar lá?

Para saber mais, visite o portal do Tierra Atacama.

O acesso a San Pedro do Atacama é feito a partir do aeroporto de Calama – CJC (Aeropuerto Internacional El Loa), pequenino e charmoso, há duas horas de voo a partir de Santiago. Duas companhias aéreas fazem o trajeto, Sky Airline e LAN. Uma van do Tierra espera os visitantes para o trajeto de 105 quilômetros até o hotel. Uma boa dica é comprar a passagem dos trechos internos diretamente nos portais chilenos das companhias. As curvas da cobertura do aeroporto lembram o desenho sinuoso do casco de Barajas, em Madri, projetado pelos arquitetos Antonio Lamela e Richard Rogers.

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