Neoclássico e Contemporâneo: Bela Convivência em Paris

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Fala-se muito em diversidade: de gênero, principalmente. Mas qual o papel do diferente no contexto da arquitetura? Paris tem muito a ensinar. Em meio ao controverso neoclassicismo do plano de Haussmann, encontra-se o ambiente perfeito para o apogeu da hipermodernidade. Bem-vindo à Paris nada intuitiva.   

Revivalismo, na essência, pelas mãos do barão. O “artista-demolidor”, Geroges-Eugène Haussmann (1809-1891), foi o idealizador responsável pela reforma urbana que deu a Paris os ares que conserva até hoje. “Na Paris do século XIX, posteriormente à revolução burguesa, ocorreu o que a história nomeou haussmannização, o projeto de modernização e embelezamento estratégico da cidade realizado pelo Barão de Haussmann, que pretendia, além de tornar a cidade mais bela e imponente, cessar com as barricadas, insurreições e combates populares muito recorrentes na época.” (Löwi, Michael).

Modernistas lamentam até hoje — as escolas brasileiras de arquitetura ainda conservam esta linha — a execução precoce do plano. O motivo, longe de ser baseado em fatores urbanísticos, se dá pelo neoclassicismo estabelecido goela abaixo por meio de decretos como estilo obrigatório e preponderante na construção dos novos imóveis.  Não fora à época a linha neoclássica impositiva, o novo plano teria sido revolucionário não apenas do ponto de vista estratégico-funcional, mas em termos de manifestação artística de estilo.

Le Corbusier, arquiteto franco-suíço, apesar de propor uma ruptura de estilo com a arquitetura neoclássica desenvolvida até o fim do século XIX na Europa, não deixa de valorizar a importância da arquitetura clássica ou renascentista. No entanto, defende a valorização, e não a imitação. “… orner ou ne pás orner, décorer ou ne pás décorer, enrichir ou ne pás enrichir. Ennoblir ou ne pás ennoblir”.

Esta matéria apresenta uma Paris nada intuitiva, nada óbvia: a Paris moderna, pós-moderna, hipermoderna. A Paris da novíssima Fondation Louis Vuitton e da Cinemateca de Frank Gehry. Em meio ao neoclássico preponderante na Île de France, o moderno parece encontrar ali o celeiro perfeito para sua valorização. Surge sui generis entre o enfadonho e repetitivo modelo neoclássico haussmaniano.

Mas o apogeu desta manifestação não se dá apenas em campo aberto, em glebas gigantescas como o Jardin d’Acclimatation onde está inserida a Fundação. Aí está o ponto. Gênio é o arquiteto/designer que consegue, em meio ao ornamento do neoclássico a intersecção de estilos a partir de uma releitura contemporânea em que a convivência do hipermoderno com o clássico é o destaque.

Onde clássico e contemporâneo se encontram

Já pensou em aprisionar a fumaça de um bom charuto num monobloco de cristal? Ou valorizar um plafon sustentado por capiteis dóricos com uma escultura de tecido suspensa? Ou acrescentar gotas de cristal em um lustre de ferro forjado? Pois esses são apenas alguns dos elementos que a dupla Patrick Jouin e Sanjit Manku desenvolveu para o endereço da alta-costura de Paris, o icônico Plaza Athénée. Em uma atmosfera distinta e onírica, a máxima manifestação da criatividade dos arquitetos se dá no Le Bar, que mistura tons de azul e marrom. Coroas de tecido se sobrepõem para formar a instalação que parece levitar sobre o espaço. Numa equação equilibrada entre o neoclássico haussmaniano e o contemporâneo, o Plaza consegue combinar arquitetura e moda. “Nosso estabelecimento tem um relacionamento próximo com as casas de costura na Avenue Montaigne, não por meio dos serviços diferenciados que oferecemos a cada um de nossos hóspedes, mas também porque estamos intimamente conectados aos nossos colaboradores, que podem até estar trabalhando nos bastidores, mas que são os responsáveis por manter o hotel funcionando – similar ao trabalho das costureiras por trás de um desfile de moda”, afirma François Delahaye, COO da Dorchester Collection.

“O designer de interiores internacionalmente aclamado Bruno Moinard foi escolhido pelo hotel para redesenhar o lobby, La galerie, La Cour Jardin, o Salon Organza (conhecido anteriormente como Salon Marie-antoinette) e o novo salão de baile, chamado Salon Haute Couture. Para criar uma atmosfera espetacular, porém discreta, sem mudar o conceito do Plaza athénée, Moinard colocou ênfase em um tom sutil de prata complementando as características existentes no hotel e destacando-as com efeitos de luzes, naturais ou não.”, publicou a revista The Winners na ocasião da reabertura do hotel após os trabalhos.

7 edifícios nada haussmanianos de Paris

Fundação Louis Vuitton

Cinco anos depois de conhecer o famoso arquiteto canadense Frank Gehry durante uma visita ao museu Guggenheim em Bilbao, o chefe executivo da LVMH, Bernard Arnault, lançou mais um projeto em suporte à arte moderna, a Fundação Louis Vuitton, em Paris. O principal objetivo era ampliar o diálogo entre artistas, intelectuais e a população, promovendo debates e reflexões.O projeto, anunciado oficialmente em outubro de 2006, comprometeu-se com um desenvolvimento sustentável. Desde seu lançamento, fauna e flora locais foram estudados para que pudessem ser previstos os impactos humanos da construção sobre o ambiente local. Mesmo após a inauguração do edifício, a LVMH se comprometeu a manter a preservação dos recursos naturais, preocupação constante da marca. Uma das iniciativas, por exemplo, é o sistema de coleta da água pluvial para uso em atividades que não precisem de água filtrada.Localizada no Bois de Boulogne, parque com mais de 840 hectares, a estrutura que ocupa 7000 m2 mescla à paisagem composta por lagos, tais quais a Great Cascade e o Ruisseau de Longchamp traços arrojados ao estilo frankiano na essência. A estrutura de fibra de concreto branca “envelopada” pela fachada de vidro, com mais de 13000 m2 de superfície, lembra um iceberg, apelido que ganhou na fase de sua construção. Pela proximidade da estrutura a um dos lagos, o prédio ganha momento e volume, assemelhando-se também às nuvens do céu.

Cinémathéque Française

A Cinémathéque Française é a organização cujo arquivo de documentos cinematográficos e relacionados é o maior do mundo. O edifício pós-moderno de Frank Gehry, onde antes era o American Center, sedia as mostras diárias de filmes do acervo da cinemateca francesa desde 2005. É o segundo projeto do arquiteto em Paris, depois do Disney Village. De 7 de março a 5 de agosto de 2012, 350 mil visitantes puderam apreciar a exibição dedicada ao produtor Tim Burton, recorde da cinemateca.O museu da cinemateca é uma área dedicada à exposição das mais belas peças da coleção da Cinémathéque Française que propõe abraçar toda a história do cinema. Figurinos e acessórios, modelos luxuosos, pôsteres, fotografias, manuscritos, e outros arquivos formam um mosaico completo do que sem dúvida é a mais rica amostra da história do cinema.

La Defénse (Arco da Fraternidade)

O Arco da Fraternidade — que tem mais de 110 metros de altura e pesa cerca de 30 mil toneladas —, é obra do arquiteto dinamarquês Johann Otto von Spreckelsonm. Em 1986, o autor do projeto abandonou os trabalhos durante as obras. Nesse momento, a responsabilidade pela execução do edifício passou ao arquiteto francês Paul Andreu, cujas obras famosas são o Museu Maritmo em Osaka, Japão, e o National Grand Theater of China, em Beijing. Ganhador de um concurso realizado em 1982, o projeto do arco foi concluído em 1989. Sua inauguração foi durante o aniversário da Queda da Bastilha, no dia 14 de julho. O conceito do arco é a construção de um lugar universal para a humanidade inserido no contexto urbano de Paris, como uma grande janela em forma de um cubo aberto, que fica curiosamente alinhado com a pirâmide do Louvre, assim como com a Avenida Champs-Elysées e o Arco do Triunfo.

Instituto do Mundo Árabe Francês

O centro de cultura árabe localizado em Paris foi projetado por Jean Nouvel e conta com espaço para exposições, biblioteca, um centro de documentação, um auditório, restaurantes, e oficinas infantis. O instituto foi inaugurado em 1987 e é uma associação de 21 países árabes juntamente com a França, cuja missão é ligar aos visitantes à cultura árabe. É composto por duas seções, separadas por uma grande fenda. O projeto, vencedor do concurso administrado pelo presidente francês François Mitterrand, adaptou padrões e formas tradicionais árabes ao contexto modernista da construção. A famosa fachada sul do prédio serve de exemplo de como essas duas linguagens interagem: a luminosidade do ambiente é regulada através de paneis com diafragmas, semelhante ao funcionamento de uma máquina fotográfica. A ideia inovadora, no entanto, utilizou motivos árabes para basear as linhas do diafragma. Outras manipulações da luz ainda brincam com formas recorrentes dessa cultura, como o hexágono e a estrela de seis pontas, protagonistas do aspecto luminoso do projeto.

Sede do Partido Comunista

A Sede do Partido Comunista, em Paris, começou a ser esboçada pelo arquiteto Oscar Niemeyer em 1965 e sua construção foi concluída em 1971. Porém, foi apenas em 1980 que o átrio, a cúpula e o salão subterrâneo do prédio foram terminados. A fachada sinuosa do prédio baixo deixa que a cidade respire, sem romper a continuidade da iluminação solar. Além disso, o hall semienterrado permite explorar volumes no exterior do prédio.O bloco principal do prédio foi construído de tal maneira a esconder a parede alta do prédio vizinho. A fachada curvada permitiu também criar certa distância entre o prédio principal e o anexo, criando espaços para jogar com estruturas.A escada interna que dá acesso ao prédio é estreita e oferece, por meio do contraste de luz, a sensação de amplitude do interior da sede do partido comunista, que foi todo desenhado a partir da lógica livre e liberdade plástica que o concreto armado sugere.Durante o desenvolvimento do projeto, Niemeyer contou com o apoio dos arquitetos franceses Jean de Roche, Paul Chemetov e Jean Prouvé.

Musée du Quai Branly

Aberto em 2006, o museu que fica às margens do Sena apresenta arte indígena das culturas da África, Ásia, Oceania e Américas. A coleção do museu tem mais de 450 mil objetos, que ficam num rodízio constante com 3.500 expostos. O museu recebe milhares de visitantes todos os anos. Construído durante a presidência de Jacques Chirac, a obra foi a concretização de uma mobilização de diversas figuras da cena cientifica e intelectual na França que se iniciou há mais de 60 anos. O grupo desejava criar um núcleo de cultura não europeia em Paris.

Parc La Villette

O parque, localizado no que antigamente foi um abatedouro que ocupava por volta de 55 hectares da capital francesa, é o maior de Paris. Apenas atrás do Cemitério do Père-Lachaise, o parque está entre as maiores áreas verdes da cidade. Projetado por Bernard Tschumi, — autor de famosas obras como o Blue Condominium, em Nova Iorque; e o New Acropolis Museum, em Athenas —, o parque abriga diversos trabalhos voltados para as áreas da ciência e da música, além das chamas follies, elementos arquitetônicos construídos independentemente, com formas e funções distintas. Seu objetivo é transpirar as ideias desconstrutivistas num momento pós-moderno. Adjacente ao parque, há a Cité des Sciences et de l’Industrie (Cidade das Ciências e da Indústria), o maior museu de ciências da Europa, ao qual o parque funciona como conector às atividades externas ao prédio principal do museu, tais quais uma sala de cinema I-MAX e o centro de convenções. Passando pelo meio do parque, há o Canal de l’Ourcq, no qual pode-se fazer passeios de barco indo às outras partes de Paris. São dez jardins temáticos diferentes que compõe o panorama do Parc La Villette. Dentre os mais famosos, o Jardim do Dragão abriga um grande dragão de metal, com um escorregador de quase 25 metros. Outro é o Jardim dos Bamboos, projetado pelo arquiteto, urbanista e paisagista Alexandre Chemetoff, vencedor do Grand Prix de l’Urbanisme (2000).

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