Patagônia Chilena: em paz no fim do mundo

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Ameizing.com visitou o Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena, e descobriu um universo singular em que ecossistema, homem e arquitetura convivem em perfeita harmonia.

Sempre orientei minhas equipes a jamais escrever em primeira pessoa. Mas a experiência vivida entre lagos, quedas d’água, icebergs e a fauna exuberante da Patagônia chilena é digna de qualquer exceção. Sendo assim, tomo a liberdade de fazer desta matéria uma espécie de relato de experiências, a exemplo dos conhecidos cadernos de viagem do grande arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Bem antes de conhecer o Tierra Patagonia, minha base dentro do parque, tenho interesse por suítes com vistas exuberantes. A ideia de tableau vivant emoldurado pela caixilharia — como nesse post com 6 banheiras com vistas incríveis —, tornou-se nesse lugar concorrência desleal para qualquer tela HD.

O convite para conhecer Torres del Paine trouxe à minha mente a odisseia do navegador português Fernão de Magalhães. Num primeiro momento, pensei que atravessaria o famoso estreito citado em Os Lusíadas. Errei pela ignorância, mas passei perto: o trajeto até o Tierra passou por Punta Arenas —  a cerca de 400 km do estreito —, destino final do voo que vinha de Santiago com escala em Puerto Mont. A partir daí, a viagem seguiu por terra, tranquila, em meio à paisagem da planície numa progressiva de beleza. As cerca de quatro horas, com direito a um lanche especial preparado pelos chefs do hotel, pareceram funcionar como preparação para a paisagem que se abriria à frente. Um teaser gastronômico. Atravessei a entrada do parque, acanhada e discreta, seguindo  poucos metros por uma estrada sinuosa. “Llegamos, señor!”. Olhei ao redor, e pensei: “Chegamos aonde?”. As portas envidraçadas pareciam um buraco aberto no solo descampado e arenoso, coberto por uma vegetação rala. Lembrei-me do túnel que dá acesso à Catedral de Brasília. Escuro, dilata as pupilas do observador para, ao fim, ofuscar a íris com o banho de luz dos vitrais coloridos. Depois de passar pelo corredor sombrio, a primeira grande surpresa: um imenso lounge se abriu, sem exageros, na mais incrível visão panorâmica que já tive. O espelho formado pelo Lago Sarmiento parecia servir de base para a Cordilheira Paine, coberta de neve e rosada ao refletir o pôr do sol que se fazia no lado oposto.

Mimetismo na forma     

Logo descobri o acesso à parte externa e fui em direção à margem do lago. De longe, a construção alongada desapareceu entre a pradaria. Meu faro arquitetônico não falhou. O Hotel Vento, como foi chamado pelo trio de arquitetos Cazu Zegers, Rodrigo Gerrer e Roberto Benavente, foi criado para fundir-se à paisagem local. Todo construído de madeira lenga — nativa da região —  e superfícies translúcidas, segue a topografia e proporciona a mais incrível panorâmica das Torres del Paine. O hotel oferece sala de estar e bar, área de jantar, biblioteca, piscina interna, jacuzzi interna e externa e Spa. O privilégio da vista pictórica não fica restrito às áreas comuns do complexo. As paisagens que cercam o hotel podem ser apreciadas pelos hóspedes a qualquer momento, já que dos 40 quartos exclusivos têm, em vez de televisões, grandes janelas abertas para a cordilheira.

Gastronomia: a revolução do all inclusive 

Sempre fugi das propostas all inclusive. A ideia de ter todas as refeições unidas num pacotão dá a conotação de volume isento de qualidade. Ainda mais quando estão na jogada as bebidas. Outra grande surpresa. No caso do Tierra, onde não há nada por perto num raio de 400 km, optou-se por investir numa dupla de chefs estrelados: Luiz Villarroel e Alvaro Covarubias. Com pratos leves e elaborados, ambos fazem do menu do Tierra elemento coadjuvante ao esplendor que a natureza intocada oferece. São exemplos a carré de cordeiro com purê de beterraba e chutney de ciruella, o congrio (peixe) grelhado com flan de centola e o gaspacho picante de centola (fotos abaixo).

Roteiros: explorando a região 

Meus amigos sempre disseram que nasci velho. Na verdade, nunca fui adepto de passeios que envolvam escaladas, corridas e esforços físicos excessivos. Num primeiro momento, me afastava a ideia de explorar a região com meus próprios pés. Mas o encontro com a equipe de guias turísticos foi surpreendente. Embalados por um Pisco Calafate — versão patagônica do tradicional Pisco Sour com um toque de licor de Calafate, frutinha vermelha nativa da região que dá nome ao estado argentino vizinho — conheci o plano de visitas divididas pela complexidade das caminhadas. Assim, escolhi os passeios mais “leves” e não menos interessantes.  Na verdade, a organização dos trajetos segundo o tempo de caminhada e a dificuldade imposta pelo relevo ajuda, e muito, na escolha dos passeios de acordo com as necessidades do visitante. Uma família com crianças a partir de seis anos, por exemplo, não tem condições de seguir um circuito de 3 horas de subida pesada. Já um casal animado, em lua de mel, pode aventurar-se numa escalada aos pés dos Cuernos (dupla emblemática de montanhas que lembra os chifres de um cervo, daí o nome — foto abaixo).

Cada passeio oferece uma visão da região com um enfoque distinto. Mas o interessante mesmo é atestar, ao vivo, como ocorre a sucessão ecológica na natureza durante as visitas. Do líquen grudado sobre as pedras à beira dos lagos — imensas formações calcárias chamadas pelos nativos de estrombolitos — à forração rasteira, pude conhecer exuberantes florestas de lenga, a madeira usada na construção do hotel. O caminho até Salto Grande, queda d’água que faz parte do complexo sistema que comunica os lagos e lagoas do parque e surge do desgelo dos glaciais, foi interrompido por manadas de guanacos, ruminantes nativos locais da família das vicunhas, que está na base da cadeia alimentar. Caçados por pumas, esses mamíferos simpáticos (foto abaixo) cruzavam o caminho do 4×4 e chegaram, inclusive, a bloquear a estrada por alguns minutos. Guardados por cerca de cinco sentinelas, os grupos pastam calmamente observados pelo predador. Ficaria horas e horas observando como caminham e interagem com os companheiros.

Recomendo três passeios panorâmicos: Maciço Paine, ideal para conhecer a região como um todo, perfeito para o primeiro dia, Laguna Azul e Glaciar Grey. Ambos são marcados pelo inconfundível azul resultante da incidência da luz e dos minerais presentes na água.  Importante: todos os passeios estão incluídos nos valores das diárias do hotel (com exceção do catamarã no Lago Grey). Os passeios mais curtos, de meia-diária, são interrompidos pelo almoço no hotel. Roteiros mais longos têm almoço ao longo da visita, num piquenique.

Mais informações: Visite o site ou ligue para 0-800-8918522

Aquarelas inspiradas no panorama da região

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