thereza

Com o charmoso sotaque nordestino, Thereza Collor chama a atenção para o design de uma das centenas de peças de sua coleção de joias e adornos garimpados pessoalmente nos desertos da Ásia e da África. As joias e as roupas são lindas, mas a beleza física de Thereza e, principalmente, sua personalidade expansiva são o alvo principal dos olhares. Em meio a joias, gatos, pães de queijo e suco de acerolas, colhidas em seu jardim de Maceió, ela nos recebeu em sua casa de São Paulo para uma entrevista exclusiva.

Você é alagoana?
Nasci no Recife, mas só nasci mesmo. Fui para Alagoas com 1 semana de vida. Minha família é pernambucana. Meu bisavô, José Pessoa de Queiroz, é citado no livro Chatô, o Rei do Brasil, do Fernando de Morais. Quando Assis Chateaubriand saiu de Umbuzeiro foi morar na casa dele e foi meu bisavô quem doou para o MASP o quadro de Van Gogh, O Escolar.

Como era sua família?
Meu pai,  João Lyra, sempre fez a vida muito separado da família de origem. Minha mãe, Solange, é filha única e teve sete filhos, três mulheres e quatro homens. Perdi um irmão num acidente de carro quando tinha acabado de ganhar o Fernando. Foi triste.

Que número de filho você é?
Sou a quinta. Aquele tipo que não é nada! (risos). Mamãe foi sui generis. Teve sete filhos em sete anos. Muito filho, né?

E essa beleza toda veio dela?
Minha mãe é muito bonita. Mora na Espanha. Tá inteira. Minha avó materna (a paterna nunca conheci) era muito bonita também. E muito moderna para a época.

Você, além de bonita, desperta uma simpatia natural nas pessoas. Não é?
Graças a Deus! É que eu acho que eu trato bem as pessoas. Gosto de gente. Me misturo. Nas viagens que eu faço para o Oriente,  abraço, me envolvo. Gosto de usar as roupas típicas locais. Certa vez vesti uma roupa da Índia tibetana para assistir a um festival de dança. Quando cheguei lá, só eu e uma nativa estávamos vestidas assim. Ela sumiu e me vi às voltas com um monte de turistas querendo tirar fotos de mim. Um mico só! Mas me divirto muito. Em qualquer lugar que eu vá, entro no espírito.

Como você vê a hipervalorização da beleza física?
Não gosto. A hipervalorização da beleza, da vaidade, do culto ao corpo, da magreza, é cansativa. Ninguém relaxa. Diria até que é um pouco histérica. Eu, propositalmente, me produzo totalmente diferente do que está na moda. Isso não quer dizer que eu não goste das coisas que estão na moda, mas gosto de usar o que me der na cabeça num determinado momento. Tem coisa que tenho há 20 anos, que amo. Não está na moda, mas eu uso. Mas, para fazer isso, tem de ter personalidade, tem de se sentir bem, saber usar. As pessoas que não são seguras de si não conseguem fazer isso e como consequência precisam da assinatura das roupas de marca, caríssimas por sinal. Compro roupas antigas enxergando o seu potencial depois de reformadas. Gosto de costurar, de bordar.

E o momento político atual?
Por coincidência, a Dora Kramer (Folha de S.Paulo) citou o livro Passando a Limpo a Trajetória de um Farsante, do Pedro, na seção dela. Olha, perto do que temos visto na política, o impeachment do Collor não era nem uma gota-d’água no oceano do que está acontecendo agora. Que vergonha, né? Não sei onde vai dar isso porque todo  mundo é envolvido. Diria 99%. Não tem em quem acreditar. Não tem um partido forte de oposição. Estava explicando isso a um americano: nos Estados Unidos, em que o governo tem uma oposição forte, por muito menos, já teria caído todo mundo. Aqui, acabou a oposição. Não tem reação. As coisas acontecem e é uma liberdade do roubar, do fazer. O Supremo Tribunal é envolvido, Dilma tem encontro secreto. Lewandowski é um horror. Me chamaram para a política no ano passado, para o Senado por Alagoas. Não aceitei.

O que você passou na época em que o Pedro denunciou o esquema de corrupção do governo Collor não foi fácil, né?
Não foi. Eu era muito jovem e estava muito sozinha. Era como se eu estivesse em uma guerra. Ficava esperando o próximo ataque.  O jurista Paulo José da Costa disse de cara: “Acusações contra o presidente, só com uma investigação”. E isso apenas o Congresso podia aprovar. Segundo ele, o que o Pedro havia dito, se não fosse provado, daria cadeia. Não havia prerrogativa quando se falava do presidente daquele jeito. Então começaram as ações contra o Pedro. Fernando o acionou. Então pensei: vou para a rua, vou fazer passeata. Todo mundo sabia da verdade, só mexendo com o povo surtiria efeito. Antes, não era como agora. Havia respeito pelo cargo. Hoje não tem mais instituições, virou uma bagaceira total. Está tudo desmoralizado. O Congresso. Tudo terrível. E, ainda por cima, Pedro ficou doente. Foi bem na sequência de todos esses acontecimentos. Foi um estresse louco. Viajamos para o exterior. O chefe da oncologia do hospital onde Pedro se tratou me disse que, apesar de não ser comprovado, a pessoa já traz no DNA a probabilidade de ter a doença. E, quando passa por um estresse muito grande, aquilo aflora. Foi tudo muito esquisito. O tumor que ele tinha na cabeça já era uma metástase de um melanoma de pele, cuja origem nunca foi descoberta. Não haviacaso de câncer na família dele. Pedro foi o primeiro.

E, com a morte dele, como você ficou?
Quando eu fiquei viúva, meus filhos tinham 7 e 10 anos. Me senti desamparada. Pedro era jovem, não tinha seguro de vida, não tinha previdência, não tinha nada. Era sócio minoritário da empresa da família e, assim, que ele morreu, Fernando assumiu o comando e confiscou os carros (que eram da empresa) e usávamos em casa. Casei cedo, tinha completado 18 anos. Pedro pagava as contas. Era comum antigamente. Mas quando me vi nessa situação fui trabalhar.

Você exerceu cargo político. Como foi essa experiência?
Sim. Num primeiro momento, fui convidada pelo governador a dirigir o Teatro Deodoro, de Alagoas. A grande obra que eu fiz foi a sua restauração que, apesar de já iniciada, estava uma bagunça. Uma auditoria levantou o que já havia sido feito e o que já tinha sido pago. Infelizmente, já tinham pago muito mais do que deviam para o que tinham entregue. Peguei um abacaxi de cara. Trabalhei muito, combatemos o cupim que vinha do solo e atingia o concreto. Trabalho insano, interminável. Mas conseguimos. Como o governador viu que eu trazia notoriedade para o estado, me convidou para assumir também a Secretaria de Turismo de Alagoas. Não havia orçamento para aquela pasta. Acabei usando do prestígio da minha imagem para divulgar a região. E o estado não despendeu nada com isso. E eu nunca cobrei nada pela quantidade de mídia que levantei. Fui supercertinha. Deixei dinheiro em caixa: tinha duas funções, só recebia por uma. Abri mão do segundo salário.

Como é a Thereza mãe?
Sou muito liberal. Meus filhos tiveram uma criação um pouco diferente da média, por causa desses problemas todos que passamos. O Fernando (31 anos) está envolvido com política em Alagoas. O Victor (28 anos) trabalha com fotografia, marketing. Faz mil e uma coisas. No fundo, a gente quer que os filhos sejam engenheiros, médicos ou advogados, mas hoje as carreiras são mais soltas. Os jovens não querem mais ter patrão. Então aceito. Não me meto. Tento apoiar.

E de onde surgiu esse interesse pelo Oriente?
Quando fiz 14 anos, em vez de festa, pedi de presente uma viagem ao Irã com uma amiga da minha mãe. De Maceió para o mundo! Era um local fechadíssimo. Acho que as histórias e a cultura do Oriente sempre me fascinaram. Mais tarde, quando minha cunhada Leda, casada com o embaixador Marcos Coimbra, ficou de castigo por nove anos no Egito, visitei muito a região. O castigo é brincadeira. É que não é comum para um diplomata ficar tanto tempo em um lugar só. Sarney era o presidente na época e Fernando Collor tinha xingado ele de rato de esgoto, e aí sobrou para o cunhado…

Conte um pouco sobre a sua coleção.
Há muito tempo coleciono joias, adornos e roupas de minorias étnicas da Ásia e da África. Já tenho muitas peças. Minha vontade é fazer um museu lá em Alagoas. Hoje tenho metade do acervo aqui em São Paulo e metade em Maceió. Em 2012 expus mais de 2 mil peças, entre brincos, colares, braceletes e vestes no Centro Cultural Fiesp. A exposição Joias do Deserto englobou peças do deserto do Saara; do deserto da Arábia; dos desertos da Ásia Central, de Thar, na Índia, e Ladkh (pertencente à Índia, Paquistão e China). Por causa da globalização e das novas configurações geopolíticas, muitas dessas sociedades estão sumindo. A coleção, além do significado artístico, é quase que um compromisso com a preservação dessas culturas. Porque não reúno apenas as peças, estudo profundamente a gente e os costumes dessas regiões.

Você garimpa tudo?
Sim. Hoje há colecionadores de arte moderna que até têm curadores para as suas coleções, que compram no lugar deles próprios. Eu vou atrás de tudo. Gosto de ir dentro do coração das coisas, conhecer profundamente. Gosto de fotografar. Levo minha câmera para onde for. Todo mundo acha que tenho mordomias nessas viagens, mas não tenho. Levo tudo no muque mesmo, o que me rendeu uma bela dor no pescoço por conta de três hérnias (risos).

Você está produzindo um livro para a Fiesp?
Estou. Estou catalogando todas as peças e, com um fotógrafo de joias amigo meu, estou produzindo as fotos. É um trabalho insano. Sou perfeccionista. Gosto de arte, de diagramação. Fotografo por todos os ângulos. Porque hoje muito livro de arte dá o detalhe de uma peça. Sempre fica lindo, mas perde-se a totalidade. Entende?

Você levou seis anos para fazer o livro sobre o estado de Alagoas. Foi isso mesmo?
Sim. Loucura, né?  Queria algo de bom gosto. Benfeito. Como te disse, sou perfeccionista. Aqui no Sudeste as pessoas acham que o nordestino tem mau gosto, não sabe fazer as coisas. E não é bem assim. Produzi tudo, com apoio de parceiros e da Lei Rouanet e percorri o estado inteiro, tirei 90% das fotos. O trabalho ficou muito completo. Acho que nenhum outro estado tem um livro como esse. Sou tão orgulhosa do meu livro!

Você não para. Foi madrinha do peixe-boi e lutou contra a transposição do Rio São Francisco. 
Sou madrinha nacional do Ibama para a preservação do peixe-boi. Gravei filmes, dei entrevista para o Fantástico. Tento ajudar como posso. No caso do São Francisco, sou contra. Projeto roubalheira. Fiz uma campanha enorme em favor dele. Não paro mesmo. Sou divertida. Uma amiga minha diz que o Gustavo (Halbreich, marido), comigo, nunca vai ter monotonia.

Musa do impeachment, símbolo sexual, você tem medo de envelhecer?
O negócio de musa já passou. Quando se está ligada a um rótulo de ser bonita, e mesmo que não fosse, envelhecer não agrada a ninguém. Mas se você tem uma base forte, um preparo, um propósito, como no meu caso, o estudo etinológico dos povos que estão se extinguindo e a minha ligação com Alagoas não é tão ruim como parece.

Como seria se houvesse um mundo ideal?
É muito complicado um mundo ideal. Acho que ia ficar até boring (risos). O mundo ideal nunca vai existir até para podermos sonhar com alguma coisa. Mas acho que já deveria ser pensado para o bem-estar das novas gerações um certo controle da população mundial. Superpopulação é problema para tudo. É problema de habitação; é problema de transporte; de abastecimento de água; saúde; alimentação…  Acho que o problema deste milênio será relacionado ao abastecimento. No fundo acho que o ideal seria almejarmos, mesmo que utopicamente, um sonho de transparência aqui no Brasil. De amor ao país. De um não pensar a curto prazo; não destruir o Rio São Francisco; não destruir a floresta. Porque o preço a pagar lá na frente será muito alto. E as pessoas parecem não ter muita consciência sobre isso.

Conteúdo produzido pela Magu Comunicação Integrada para a revista BLEND, do salão BLEND Your Mind.
Foto: Victor Collor

Comentários

Fale conosco pelo telefone (11) 2925 2901 ou Clique Aqui