A Frida Khalo paining is displayed during an exhibit of Frid

“Pies, para que los quiero si tengo alas para volar?”
Dor e sofrimento foram as bases da arte singular de
Frida Kahlo. Presa ao leito, a mais reconhecida pintora
latino-americana continua atual e contemporânea

TRADUÇÃO

1. Nada se compara às suas mãos nem nada é igual ao ouro-verde dos seus olhos. Meu corpo é preenchido pelo seu dia após dia. És o espelho da noite. A luz violenta do relâmpago. A umidade da minha terra. O vazio de suas axilas é o meu refúgio. Meus dedos tocam teu sangue. Toda a minha alegria é sentir brotar a vida da tua fonte-flor para encher todos os caminhos dos meus nervos que são teus.

2. Pinto a mim mesma porque estou com frequência sozinha e porque sou a pessoa a qual conheço melhor.

3. Esta dor é a que mais machuca.

4. Mamãe não aprova o meu Diego porque é muito velho, muito gordo e, ainda pior, um comunista ateu.

5. Pintada de azul, por fora e por dentro, parece alojar um pouco do céu. É a casa típica da tranquilidade do povo onde a boa mesa e o belo sonho dão a qualquer um energia suficiente para viver sem maiores problemas e morrer pacificamente.

Quem reconhece em 50 Tons de Cinza, de E. L. James, a máxima reprodução do lirismo erótico não conhece o Diário Íntimo de Frida Kahlo. “Nada comparable a tus manos ni nada igual al oro-verde de tus ojos. Mi cuerpo se llena de ti por días y días. Eres el espejo de la noche. La luz violenta del relámpago. La humedad de la tierra. El hueco de tus axilas es mi refugio. Mis yemas tocan tu sangre. Toda mi alegría es sentir brotar la vida de tu fuente-flor que la mía guarda para llenar todos los caminos de mis nervios que son los tuyos” (1). Mas as palavras da mexicana em suas confissões a Diego Rivera escondem o talvez principal motivo da singularidade de sua obra: seu corpo não respondia à velocidade de sua mente. As limitações físicas foram, para Frida, a justificativa de sua produção: “Mi pinto a mí misma porque estoy con frecuencia sola y porque soy la persona a cual mejor conozco” (2).

O leito que numa primeira análise limitou a artista, na verdade a fez. A figura inconfundível do buço aparente e da sobrancelha virgem fazem da excêntrica imagem a marca de Frida Kahlo. Mas a poliomielite enquanto criança somada às sequelas físicas deixadas pelo acidente de ônibus foram alicerces para a formação singular da mais curiosa mulher mexicana.

Frida e sofrimento são sinônimos. Doenças à parte, sua vida foi marcada por decepções. Há quem diga que Diego Rivera, seu grande amor, tenha sido o grande responsável por sua amargura. Depois de uma série de abortos, Frida sentiu, segundo ela própria, a maior de suas dores: Diego tomou sua irmã mais jovem como concubina. “Esta pena es la que mas me duele” (3). Talvez a desaprovação de sua mãe ao matrimônio, em 21 de agosto de 1929, tivesse algum fundamento. “Mama no aprueba a mi Diego porque es demasiado viejo, demasiado gordo y todavia peor, un comunista y un ateo” (4).

Mas recentes descobertas revelaram, por meio de documentos históricos, que a relação de Frida com Diego foi intensa e amorosa. Fato é que, em meio às intempéries de um casamento marcado por traições e desencontros, Frida vingou-se das transgressões de Rivera e satisfez-se com relações nem um pouco amenas. Dentre seus casos, que incluem homens e mulheres, destaca-se ninguém menos que Leon Trotsky. A identificação, nesse caso, transcendeu sem dúvida o ideal político comum.

O UNIVERSO ÍNTIMO DE FRIDA

Em entrevista exclusiva para ameizing, Hilda Trujilo Solo, diretora do Museu Frida Kahlo, La Casa Azul, revelou particularidades sobre a pintora. “Quando se aprofunda o conhecimento da obra de Frida, descobre-se a intensa relação que há entre sua produção e a casa onde viveu”, conta. Segundo Hilda, todo o universo da controversa artista encontra-se na Casa Azul, local onde nasceu e morreu. “Depois do casamento com Diego, Frida viajou pelo México e chegou a viver no exterior, mas sempre regressou ao casarão em Coyocán.” Dentre as obras do acervo que chega a quase 100 itens, Trujilo destaca os quadros Frida y la Cesárea (1931), Retrato de mi Padre Wilhem Kahlo (1952) e Viva la Vida (1954).

Encanta o universo da pintora. Sobre a cabeceira da cama, intacta, repousam os retratos de Lenin, Stalin e Mao Tsé-Tung. Contraditoriamente, no ateliê vê-se um cavalete presenteado por Nelson Rockefeller, entre livros e pincéis. Do affair Isamu Noguchi, escultor, Frida herdara a coleção de borboletas. Em 1955, Carlo Pellicer descreveu o espaço como um pedaço do céu. “Pintada de azul, por fuera y por dentro, parece alojar un poco de cielo. Es la casa típica de la tranquilidad pueblerina donde la buena mesa y el buen sueõ le dan a uno la energía suficiente para vivir sin mayores sobresaltos y pacíficamente morir…” (5).

▲ Raízes, 1943
Arrematado em leilão da Casa Sotheby’s, em Nova Iorque, por U$5,6 milhões. Há rumores de que o comprador anônimo seria a cantora Madonna.

Retrato de mi Padre
Wolhem Khalo
, 1952
Museu Frida Khalo
La Casa Azul.

▼ Viva la Vida, 1954
Museu Frida Khalo
La Casa Azul

Originalmente a Casa Azul não era grande. Erguida em 1904, tem hoje 800 m2. “Guillermo Kahlo, pai de Frida, construiu a casa aos modos do estilo da época: pátio central rodeado por quadros e fachada afrancesada”, conta a historiadora Beatriz Scharrer. “Foi quando Trotsky viveu ali, em 1937, que as paredes foram pintaram de azul”, conta. Paredes de uma vida.

SINCERA, ÚNICA E ATUAL

Hilda Trujillo, Diretora do Museu Frida Khalo
Em Coyoacán, Cidade do México, México

POR QUE FRIDA FASCINA TANTO?

Por meio de sua vida e produção artística, Frida responde a questões sociais. Sua arte ultrapassa os limites do tempo, persiste atual e sincera.

CONTE-NOS, EM POUCAS PALAVRAS, O QUE CARACTERIZA A PRODUÇÃO ARTÍSTICA DE FRIDA. QUAIS EVIDÊNCIAS, EM TERMOS ESTÉTICOS, FAZEM DE SUA PINTURA UMA MANIFESTAÇÃO ÚNICA NO MUNDO?

A produção artística de Frida é rica, única e original. Representa sentimentos e experiências profundas de uma vida. Sua arte tem relevância sociológica e simbólica que transcende o valor estético.

EM QUE SENTIDO O ACIDENTE, AINDA NA JUVENTUDE, INFLUENCIOU SUA ARTE?

O acidente fez a arte de Frida. No início, ela queria ser médica. O longo período sobre o leito, somado à influência do pai fotógrafo, é a base para a Frida pintora, sobretudo, de autorretratos. Além da imagem própria, Frida pintou durante a convalescência sobre a cama paisagens, objetos e a casa onde vivia. Cada elemento encontrado na Casa Azul, hoje museu Frida Kahlo, teve um significado especial para ela.

QUANDO FOI FUNDADO O MUSEU E QUANTOS TRABALHOS TEM A COLEÇÃO?

O museu foi aberto em 1958, tem quase 100 obras da artista, entre desenhos e objetos relacionados a ela.

CONSIDERANDO AS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELAS MULHERES EM CONQUISTAR ESPAÇO NA SOCIEDADE E REALIZAR-SE ECONOMICAMENTE, COMO FRIDA CONTRIBUIU PARA O RESPEITO DA FIGURA FEMININA NAS SOCIEDADES MEXINA E NORTE-AMERICANA?

Frida não contribuiu para a conquista das mulheres. Frida contribui hoje, agora. Ela sofreu um recente e surpreendente boom. Muitas pessoas visitam seu museu. O interesse por seu trabalho é a resposta do mundo às questões de liberdade e tolerância, a construção de uma identidade seguida de um fundo social. É ser livre na expressão estética e no trato com qualquer tema ou ideal. Isso é o que atrai a juventude feminina. Frida foi tão criativa e expressiva, graças à sua curiosidade intelectual. Esse foi o subsídio de sua liberdade. As mulheres de

hoje, que ainda buscam igualdade, veem em Frida um exemplo de quem conseguiu conquistar seu espaço com conhecimento, pesquisa e leitura, em vez da autopunição.

RIVIERA ENCORAJOU FRIDA EM SUA PRODUÇÃO ARTÍSTICA?

Ele sempre foi amigo e companheiro. Sempre a encorajou e insistia em dizer à esposa que ela era uma artista formidável. A relação entre os dois era bem diferente do que se imaginava no princípio. Acreditava-se que Rivera se comportava como o macho da relação e causava sofrimento a Frida. Entretanto, a descoberta de documentos importantes revelou uma relação saudável e estreita do casal. Frida sempre consultava o marido e imperava entre os dois um profundo respeito.

FRIDA ERA REALMENTE COMUNISTA? FALE-NOS SOBRE A TRAJETÓRIA POLÍTICA DA ARTISTA.

Frida foi uma das poucas mulheres que estudaram numa comunidade predominantemente masculina. Vivia num tempo anterior à Revolução Mexicana, em meio a um movimento social e político iminente. Simpatizava com um grupo chamado Os Cachuchas, que não tinha identificação política e pertencia à classe média alta. Quando conheceu Diego, começou a participar de encontros políticos do Partido Comunista e apaixonou-se por esse ideal. Era contra desigualdades, acreditava num país mais homogêneo, com menos contradições sociais. Seu marido era realmente engajado. Militante do Partido Comunista, Rivera levou a mulher para perto de si e identificou-se diretamente com os ideais da Revolução Mexicana que tinha como meta o desenvolvimento de uma nação onde trabalhadores e agricultores teriam melhores condições de vida.

FRIDA FICOU FAMOSA ANTES DE MORRER?

Frida não foi famosa. Organizou apenas três exposições do seu trabalho ao longo de toda a vida, uma na galeria Julien Levy, em Nova Iorque, outra na Galeria de Arte Mexicana e outra em Paris.

ALÉM DE DIEGO, FRIDA TEVE OUTROS AMORES?

Frida amou e relacionou-se, além de Diego, com Nicolas Muray, Leon Trotsky e Isamu Noguchi, entre outros.

COMO CLASSIFICAR A ARTE DE FRIDA? SURREALISTA, NATIVA? FRIDA FOI ARTISTA DE UM ESTILO SÓ

Frida foi um pouco de tudo isso, e por esse motivo foi única e singular.

La Casa Azul:
Museu Frida Khalo

Endereço: Londres 247, Del Carmen, Coyoacán, Cidade do México, DF, México
| Telefone: 52 55 5554 5999 |
Mais informações no site

Aberto às terças, das 10 às 17h45, quartas  das 11 às 17h45, e de quinta a domingo das 10 às 17h45

LINHA DO TEMPO

1907
Nasce na Casa Azul, em Coyocán, México, Magdalena Carmen Frieda Calderon, filha do casal Matilde Calderon y Gonzales, mestiça de índio e espanhol, e Guillermo Kahlo, judeu de origem húngaro-germânica.

1913
Aos 6 anos, vítima de poliomielite, Frida tem o crescimento da perna direita afetado pela doença. Mesmo com o esforço do tratamento, as deformidades permanecem.

1922
Inicia os estudos na Escola Nacional. Frida era uma das 35 mulheres que frequentavam a escola e tinha a esperança de tornar-se médica. Com o Movimento Muralista Mexicano efervescente, a jovem conhece Diego Rivera e torna-se membro do grupo Los Cachuchas. Seu namorado, Alejandro Gómez Arias, era líder do grupo. Nesse momento, Frida passa a divulgar seu ano de nascimento como 1910, data da Revolução Mexicana.

1924
Frida começa a trabalhar no estúdio de seu pai, fotógrafo.

1925
Começa a ter aulas de desenho com Fernando Fernandez, amigo de seu pai. No dia 17 de setembro, Frida sofre um
grave acidente a bordo de um ônibus atingido por um bonde. Com o osso
pélvico fraturado, a jovem sofre meses durante a recuperação.

1926
Na convalescência, começa a pintar e faz seu primeiro autorretrato, presente a Alejandro.

1927
Alejandro vai à Europa e Frida, recuperada, volta à vida normal.

1928
Junta-se a um grupo político liderado pelo comunista cubano Julio Antonio Mella. Termina com Alejandro.

1929
No dia 21 de agosto, torna-se, numa cerimônia civil, a terceira esposa de Diego Rivera.

1930
Sofre seu primeiro aborto. Muda-se, no mês de novembro, para São Francisco com o marido.

1931
Enquanto Rivera ocupa-se com um mural na cidade norte-americana, a saúde de Frida piora. As deformidades da perna direita aumentam e, com elas, a dor. Volta para o México e envolve-se com Nickolas Muray.

1932
Muda-se com Rivera para a Filadélfia. Tem o segundo aborto.

1933
Rivera tem desentendimento com Rockefeller Center por insistir em manter a figura de Lenin no mural de Nova Iorque.

1934
Sofre o terceiro aborto.

1937
Frida e Rivera recebem o casal Leon Trotsky e Natalia Sedova na Casa Azul. Em setembro, tem suas pinturas incluídas na Exposição da Galeria Nacional das Artes no México.

1938
Frida tem trabalhos expostos na Julien Levy Gallery, em Nova Iorque.

1939
Participa de exposição na Galeria Colle, em Paris. Depois de brigas com Diego, começa o processo de divórcio.

1940
Com o assassinato de Trotsky, Frida sofre dois anos com interrogatórios da polícia.

1944
A saúde de Frida começa a piorar.

1946
Recebe o Prêmio Nacional de Artes e Ciências do México pelo quadro Moisés (à direita).

1950
Fica internada por nove meses com o agravamento dos problemas na coluna.

1953
Lola Alvarez Bravo organiza a primeira exposição solo de Frida, no México.

1954
No dia 13 de junho Frida dá entrada no hospital, já morta, com suspeita de tentativa de suicídio. O atestado de óbito registra embolia pulmonar, mas desconfiou-se de overdose. A última anotação do diário, diz: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar”.

El Abrazo de Amor del Universo, la Tierra (México),
Diego, Yo y el Señor Xólotl
, 1949
Coleção de Jacques e Natasha Gelman,
Cidade do México, México

Conteúdo produzido pela MAGU Comunicação para a Revista AMEIzing, edição #6

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